sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Meu cão
Hoje é um dia particularmente triste para mim. Tive que tomar uma decisão que nunca havia me passado pela cabeça que teria que tomar. Apesar de toda a racionalidade, de saber que é a melhor coisa a fazer, de defender essa opção, não foi nada fácil. Ter que definir entre a vida e a morte de um ser que depende de você é muito duro. Principalmente depois de tantos anos. Foram mais de 15 anos juntos.
Mas, agora é pensar que foi a melhor coisa. Não gosto de sofrimento físico, nem para as pessoas nem para os animais. Não faz nenhum sentido.
Quero lembrar que foi ótimo ser a dona desse cão meio alucinado, que aprontou tudo que pode, que tinha pavor de trovões, ventos e chuva!
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
A Física em Chico Buarque - parte 3
A
música da vez é Rosa
dos Ventos.
Esta música foi gravada no álbum Chico Buarque de Hollanda nº 4,
de 1970. Parte desse álbum foi gravada ainda no exílio, em Roma, e
retrata de maneira muito forte a realidade vivida à época.
A
repressão política e cultural calava a todos, causando tristeza e
impedindo, inclusive, o choro. Mas a letra mostra também a
possibilidade de mudança, e a Rosa dos Ventos acaba por perder-se em
meio a revolução que inunda o mar de água doce! Linda e forte,
digna de seu autor e de sua época.
E
vamos a Física nesta letra!
Rosa
dos Ventos
E
do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas (ausência da luz)
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr (passar do tempo, devido a rotação da Terra em torno do Sol)
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo (início de um novo dia, devido, também, a rotação da Terra em torno do Sol)
Como uma chuva de pétalas (fenômeno meteorológico, precipitação de gotas de água)
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se (representa as quatro direções fundamentais, norte, sul, leste e oeste, e as suas intermediárias)
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde o seu despertar
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas (ausência da luz)
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr (passar do tempo, devido a rotação da Terra em torno do Sol)
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo (início de um novo dia, devido, também, a rotação da Terra em torno do Sol)
Como uma chuva de pétalas (fenômeno meteorológico, precipitação de gotas de água)
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se (representa as quatro direções fundamentais, norte, sul, leste e oeste, e as suas intermediárias)
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde o seu despertar
_____________________________________________
Quer ouvir a música, clique aqui! E divirta-se.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Futuros Amantes - uma outra dica
Na busca por informações sobre a música encontrei esse site Bem interessante as análises da letra.
Quem se interessar por interpretações pode dar uma olhada.
Muito esclarecedor, as vêzes.
Quem se interessar por interpretações pode dar uma olhada.
Muito esclarecedor, as vêzes.
A Física em Chico Buarque - Parte 2
A escolhida de hoje é a música Futuros Amantes, gravada no CD Paratodos, de 1993.
Na verdade, Física mesmo tem muito pouco. É muito mais poesia. E é lindíssima!!!
%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%%
Futuros
Amantes
Não
se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar (mistura de gases que compõem a atmosfera da Terra)
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar (mistura de gases que compõem a atmosfera da Terra)
E
quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios
em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras (acústica – reflexão do som)
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras (acústica – reflexão do som)
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não
se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você
Música aqui!
Divirtam-se.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
A Fisica em Chico Buarque - parte 1
Como grande
fã da obra de Chico Buarque, resolvi dar uma olhada com olhos
diferentes para aquelas coisas tão belas que conheço a tanto tempo.
Será que é
possível encontrar Física nas letras maravilhosas dessas músicas?
Fazendo
essa pergunta, comecei a investigar esta possibilidade.
E não é
que tem Física nestas letras!!!
Vou começar
uma série de postagens sobre esse tema. Vamos ver até onde consigo
ir.
A ideia é
escolher músicas, apresentá-las, e descobrir na letra conceitos
físicos.
Para
começar, escolhi um música que gosto muito, A Ostra e o Vento,
canção tema do filme brasileiro de 1997, de mesmo nome, dirigido
por Walter Lima Jr., com trilha sonora de Wagner Tiso. Esta canção
foi gravada por Chico no CD As Cidades, de 1998. Belíssima!!!
*********************************************************************************
A Ostra e o Vento
Vai
a onda (perturbação oscilante de
alguma quantidade física no espaço e periódica no tempo; pulso que
se propaga)
Vem a nuvem (conjunto visível de partículas muito pequenas de água ou gelo, ou ambos, suspensas na atmosfera)
Cai a folha (ação da força gravitacional)
Quem sopra meu nome?
Raia o dia (efeito da rotação da Terra)
Tem sereno (precipitação da umidade do ar por condensação)
O pai ralha
Meu bem trouxe um perfume?
O meu amigo secreto
Põe meu coração a balançar
Pai, o tempo está virando
Pai, me deixa respirar o vento (fluxo de ar entre regiões na atmosfera com diferentes pressões)
Vento
Vem a nuvem (conjunto visível de partículas muito pequenas de água ou gelo, ou ambos, suspensas na atmosfera)
Cai a folha (ação da força gravitacional)
Quem sopra meu nome?
Raia o dia (efeito da rotação da Terra)
Tem sereno (precipitação da umidade do ar por condensação)
O pai ralha
Meu bem trouxe um perfume?
O meu amigo secreto
Põe meu coração a balançar
Pai, o tempo está virando
Pai, me deixa respirar o vento (fluxo de ar entre regiões na atmosfera com diferentes pressões)
Vento
Nem
um barco
Nem um peixe
Cai a tarde (mais rotação da Terra!)
Quem sabe meu nome?
Paisagem
Ninguém se mexe
Paira o sol (equilíbrio do sistema planetário)
Meu bem terá ciúme?
Meu namorado erradio
Sai de déu em déu a me buscar
Pai, olha que o tempo vira
Pai, me deixa caminhar ao vento (efeito da força de atrito)
Vento
Nem um peixe
Cai a tarde (mais rotação da Terra!)
Quem sabe meu nome?
Paisagem
Ninguém se mexe
Paira o sol (equilíbrio do sistema planetário)
Meu bem terá ciúme?
Meu namorado erradio
Sai de déu em déu a me buscar
Pai, olha que o tempo vira
Pai, me deixa caminhar ao vento (efeito da força de atrito)
Vento
Se
o mar tem o coral
A estrela, o caramujo (conjunto de material gasoso e mantido agrupado pela ação de uma enorme força gravitacional; o Sol é um exemplo)
Um galeão no lodo
Jogada num quintal
Enxuta, a concha guarda o mar
No seu estojo
Ai, meu amor para sempre
Nunca me conceda descansar
Pai, o tempo vai virar
Meu pai, deixa me carregar o vento
Vento
Vento, vento
A estrela, o caramujo (conjunto de material gasoso e mantido agrupado pela ação de uma enorme força gravitacional; o Sol é um exemplo)
Um galeão no lodo
Jogada num quintal
Enxuta, a concha guarda o mar
No seu estojo
Ai, meu amor para sempre
Nunca me conceda descansar
Pai, o tempo vai virar
Meu pai, deixa me carregar o vento
Vento
Vento, vento
*********************************************************************************************
Acho
que acabei! Ou será que ainda tem algum conceito escondido nas
entrelinhas?
Letra da música disponível em aqui. E clipe também.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Greve que não te quero greve!!!
Depois de muitos anos me vejo novamente em meio a uma greve de professores das Universidades Federais.
Mas quanta diferença! Não dá para explicar o tamanho da diferença! Eu, que já fui líder sindical, que conduzi mais de uma greve, que organizei muitas manifestações, aqui e em outros lugares, me pego hoje desacreditando desse tipo de movimento.
Foi-se a esperança de que o movimento coletivo produzirá a mudança?
Foi-se a ilusão de que a luta da classe trabalhadora é que mudará o mundo?
Não sei dizer. Mas que algo foi-se, não tenho dúvidas.
O embate de outros tempos produziu uma cicatriz muito grande, que marca na carne um descrédito com o movimento coletivo, com a categoria dos professores, com tudo isso.
No entanto, essa constatação incomoda. Talvez isso seja sinal de que, no fundo, alguma esperança resta ainda.
Só não sei esperança em que!!
segunda-feira, 14 de maio de 2012
![]() |
| Starry night (Van Gogh) http://letras.terra.com.br/don-mclean/687594/ |
Don McLean
Starry starry night, paint your palette blue and grey
Look out on a summer's day with eyes that know the
Look out on a summer's day with eyes that know the
darkness in my soul
Shadows on the hills, sketch the trees and the daffodils
Catch the breeze and the winter chills, in colors on the snowy linen land
Shadows on the hills, sketch the trees and the daffodils
Catch the breeze and the winter chills, in colors on the snowy linen land
Now I understand what you tried to say to me
How you suffered for you sanity How you tried to set them free
They would not listen they did not know how, perhaps they'll listen now
How you suffered for you sanity How you tried to set them free
They would not listen they did not know how, perhaps they'll listen now
Starry starry night, flaming flowers that brightly blaze
Swirling clouds in violet haze reflect in Vincent's eyes of china blue
Colors changing hue, morning fields of amber grain
Weathered faces lined in pain are soothed beneath the artist's loving hand
Swirling clouds in violet haze reflect in Vincent's eyes of china blue
Colors changing hue, morning fields of amber grain
Weathered faces lined in pain are soothed beneath the artist's loving hand
Chorus:
For they could not love you, but still your love was true
And when no hope was left in sight, on that starry starry night
You took your life as lovers often do,
But I could have told you, Vincent,
This world was never meant for one as beautiful as you
For they could not love you, but still your love was true
And when no hope was left in sight, on that starry starry night
You took your life as lovers often do,
But I could have told you, Vincent,
This world was never meant for one as beautiful as you
Starry, starry night, portraits hung in empty halls
Frameless heads on nameless walls with eyes that watch the world and can't forget.
Like the stranger that you've met, the ragged man in ragged clothes
The silver thorn of bloody rose, lie crushed and broken on the virgin snow
Frameless heads on nameless walls with eyes that watch the world and can't forget.
Like the stranger that you've met, the ragged man in ragged clothes
The silver thorn of bloody rose, lie crushed and broken on the virgin snow
Now I think I know what you tried to say to me
How you suffered for you sanity How you tried to set them free
They would not listen they're not listening still
Perhaps they never will.
How you suffered for you sanity How you tried to set them free
They would not listen they're not listening still
Perhaps they never will.
__________________________________________________
Toda vez que escuto essa música, me emociono de um jeito meio inexplicável, meio sem porque.
Talvez só por ser bela. E sempre me
lembro do meu
pintor favorito.
lembro do meu
pintor favorito.
terça-feira, 1 de maio de 2012
Reflexões sobre o Primeiro de Maio
Por Ana Luiza Costa
1º
de maio de 2012, o dia acordou cinza, a chuva insistente. Feriado. Há
alguns anos atrás, tempos de estudante de graduação, ou um pouco
depois disso, mesmo com tais condições climáticas, me arrumaria
para participar de algum ato de celebração do dia do trabalhador.
Hoje, apenas mudei a roupa para ir ao mercado comprar os ingredientes
do almoço. Apesar do meu atual "imobilismo", condicionado,
entre outros motivos, pela crise dos movimentos sociais e da
esquerda, ainda me incomoda ouvir muitas pessoas dizendo que o
feriado de 1º de maio é dia do "trabalho", não é. 1º
de maio é dia do trabalhador. Ainda me resta algum impulso
ideológico para parabenizar as (os) atendentes do mercado pelo dia
"do trabalhador". "Vamos lá, gente, orgulho, cabeça
erguida, dignidade"! Sim, talvez não faça nenhuma diferença
para o contexto da luta de classes no Brasil demonstrar
simbolicamente que valorizamos o atendente do mercado. Elas e eles
prefeririam estar curtindo, em casa, o feriado. Prefeririam a
valorização em termos materiais/salariais. Como eu também, nos
termos da minha profissão. Tampouco, talvez, represente alguma
contribuição relevante, estar agora sentada em frente ao computador
a escrever uma reflexão sobre o 1º de maio, pode ser... Mas, quando
fazemos uma escolha ideológica para nossa vida, em que pese estarem
essas escolhas totalmente fora de moda, a questão já não é mais
tão pragmática - "o que adianta realizar este ou aquele
pequeno ato em prol do socialismo e das classes trabalhadoras?".
É claro que realizarmos atos maiores, de comprometimento orgânico
com a luta é bem melhor que realizarmos pequenos atos... A questão
é que já não conseguimos nos omitir, já não conseguimos,
simplesmente deixar passar o dia como se não estivesse acontecendo
nada, no mínimo seguimos consumidos por uma certa angústia ou
melancolia de quem gostaria de ver as ruas cheias de gente com
palavras de ordem, faixas e cartazes, ao som da Internacional. E
nesses casos, a memória é remexida, memória de coisas que vivemos
e daquelas que não vivemos, mas lemos, ou nos foram contadas. Esta
memória não sossega e pede para ser compartilhada. Não há saída
a não ser atender seus apelos e contar para quem nos ouça, por
exemplo, que a luta de classes não acabou, que não estamos vivendo
o fim da história. Sem querer ser condescendente com os partidos de
esquerda, sindicatos e demais organizações dos movimentos
populares, é preciso dizer que muitas lutas mais ou menos isoladas,
mais ou menos silenciadas vem sendo travadas hoje. Ontem mesmo, li
uma carta de organizações populares que denunciavam as execuções
de camponeses e de um professor universitário em Roraima nos
conflitos por terra. É novamente a memória que traz o
pensamento de um verdureiro londrino do início do século XIX, lido
no volume 3 da Formação da Classe Operária (E. P. Thompson).
Segundo ele "As pessoas imaginam que, quando tudo está quieto,
está se estagnando. O propagandismo continua apesar disso. É quando
tudo está quieto que a semente cresce, os republicanos e socialistas
levam a frente suas doutrinas". Não significa que uma nova
sociedade, sem a exploração do trabalho, igualitária, livre e
justa, vá surgir espontaneamente, de uma hora para outra. Ela
precisa ser construída, entretanto é preciso ter clareza que essa
construção é uma disputa: tantas vezes os tijolos são colocados
para, logo em seguida, serem derrubados. Mas, a partir do momento que
fazemos a escolha ideológica pelo socialismo, entramos em nosso
tempo para disputar e construir. Por fim, deixo novamente manifestar
a memória ainda ao falar em construção. Segue a baixo, a poesia de
Vinícios de Moraes, que sempre me emociona nas descobertas do
operário e na sua constante renovação da construção de si, de
sua classe, de um outro mundo. Tijolos assentados, tijolos
derrubados, esse fio liga historicamente o operário de Vinícius aos
operários que morreram, por outros que viverão, deixemos esse fio
tecer também as nossas esperanças.
O operário em construção (Vinícius de Moraes)
Era
ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
Tomei emprestado esse material de uma pessoa que prezo muito e que sempre me comove.
sábado, 31 de março de 2012
Solidão
De vez em quando aparece aquela vontade enorme de ter gente do lado, nem que seja para ficar em silêncio. E esse é um desses momentos. Não é vontade de falar, mas de fazer silêncio em companhia de outra pessoa que entenda esse silêncio.
E lembrei da música abaixo. Quem souber tocar que toque.
Dança da Solidão
Paulinho da ViolaTom: C
[Intro:] Am
A7 Dm
Solidão é lava que cobre tudo
E7 Am B7 E7
Amargura em minha boca, sorri seus dentes de chumbo
Am A7 Dm
Solidão palavra cavada no coração
Am E7 Am
Resignado e mudo no compasso da desilusão
Dm E7 A7
Desilusão, desilusão
Dm
Danço eu dança você
E7 Am
Na dança da solidão
E7 Am
Caméllia ficou viúva, Joana se apaixonou
A7 Dm
Maria tentou a morte, por causa do seu amor
Bm7(b5) E7 Am
Meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado
E7 Am
Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado
Quando vem a madrugada, meu pensamento vagueia
Corro os dedos na viola, contemplando a lua cheia
Apesar de tudo existe, uma fonte de água pura
Quem beber daquela água, não terá mais amargura
Fez-me companhia.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Sustos da Vida da Gente
Sabe aquelas coisas completamente inexplicáveis que as vêzes acontecem na vida da gente? Pois então. Elas servem para fazer com que a gente pense um pouco sobre o tipo de coisas que andamos valorizando, o tipo de vida que levamos, os amigos que temos e por aí vai.
Gosto de pensar que sempre darei conta de tudo, que faço o que escolhi fazer da minha vida, que não tenho com o que me preocupar, afinal, uma mulher do século XXI independente, bem resolvida vai precisar do que além de si mesma?
Pois não é que tem horas que nada disso basta? Que sentimos falta de um abraço, de um cuidado, de uma atenção? Pois isso acontece.
O bom é saber que mesmo assim, nestas horas que parecem que não passam, a gente está dando conta. Meio aos trancos e barrancos, mas vai indo a vida. E saímos mais fortes desses momentos. O negócio é saber se daremos conta sempre! Mas aí é outra questão.
Gosto de pensar que sempre darei conta de tudo, que faço o que escolhi fazer da minha vida, que não tenho com o que me preocupar, afinal, uma mulher do século XXI independente, bem resolvida vai precisar do que além de si mesma?
Pois não é que tem horas que nada disso basta? Que sentimos falta de um abraço, de um cuidado, de uma atenção? Pois isso acontece.
O bom é saber que mesmo assim, nestas horas que parecem que não passam, a gente está dando conta. Meio aos trancos e barrancos, mas vai indo a vida. E saímos mais fortes desses momentos. O negócio é saber se daremos conta sempre! Mas aí é outra questão.
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