quarta-feira, 23 de maio de 2012

Greve que não te quero greve!!!



Depois de muitos anos me vejo novamente em meio a uma greve de professores das Universidades Federais. 
Mas quanta diferença! Não dá para explicar o tamanho da diferença! Eu, que já fui líder sindical, que conduzi mais de uma greve, que organizei muitas manifestações, aqui e em outros lugares, me pego hoje desacreditando desse tipo de movimento.
Foi-se a esperança de que o movimento coletivo produzirá a mudança? 
Foi-se a ilusão de que a luta da classe trabalhadora é que mudará o mundo? 
Não sei dizer. Mas que algo foi-se, não tenho dúvidas. 
O embate de outros tempos produziu uma cicatriz muito grande, que marca na carne um descrédito com o movimento coletivo, com a categoria dos professores, com tudo isso. 
No entanto, essa constatação incomoda. Talvez isso seja sinal de que, no fundo, alguma esperança resta ainda. 
Só não sei esperança em que!!  

segunda-feira, 14 de maio de 2012


                              Vincent (Starry starry night)
Don McLean
Starry starry night, paint your palette blue and grey
Look out on a summer's day with eyes that know the 
darkness in my soul
Shadows on the hills, sketch the trees and the daffodils
Catch the breeze and the winter chills, in colors on the snowy linen land
Now I understand what you tried to say to me
How you suffered for you sanity How you tried to set them free
They would not listen they did not know how, perhaps they'll listen now
Starry starry night, flaming flowers that brightly blaze
Swirling clouds in violet haze reflect in Vincent's eyes of china blue
Colors changing hue, morning fields of amber grain
Weathered faces lined in pain are soothed beneath the artist's loving hand
Chorus:
For they could not love you, but still your love was true
And when no hope was left in sight, on that starry starry night
You took your life as lovers often do,
But I could have told you, Vincent,
This world was never meant for one as beautiful as you
Starry, starry night, portraits hung in empty halls
Frameless heads on nameless walls with eyes that watch the world and can't forget.
Like the stranger that you've met, the ragged man in ragged clothes
The silver thorn of bloody rose, lie crushed and broken on the virgin snow
Now I think I know what you tried to say to me
How you suffered for you sanity How you tried to set them free
They would not listen they're not listening still
Perhaps they never will.
__________________________________________________
Toda vez que escuto essa música, me emociono de um jeito meio inexplicável, meio sem porque. 
Talvez só por  ser bela. E sempre me 
lembro do meu 
pintor favorito.

terça-feira, 1 de maio de 2012


Reflexões sobre o Primeiro de Maio

Por Ana Luiza Costa



1º de maio de 2012, o dia acordou cinza, a chuva insistente. Feriado. Há alguns anos atrás, tempos de estudante de graduação, ou um pouco depois disso, mesmo com tais condições climáticas, me arrumaria para participar de algum ato de celebração do dia do trabalhador. Hoje, apenas mudei a roupa para ir ao mercado comprar os ingredientes do almoço. Apesar do meu atual "imobilismo", condicionado, entre outros motivos, pela crise dos movimentos sociais e da esquerda, ainda me incomoda ouvir muitas pessoas dizendo que o feriado de 1º de maio é dia do "trabalho", não é. 1º de maio é dia do trabalhador. Ainda me resta algum impulso ideológico para parabenizar as (os) atendentes do mercado pelo dia "do trabalhador". "Vamos lá, gente, orgulho, cabeça erguida, dignidade"! Sim, talvez não faça nenhuma diferença para o contexto da luta de classes no Brasil demonstrar simbolicamente que valorizamos o atendente do mercado. Elas e eles prefeririam estar curtindo, em casa, o feriado. Prefeririam a valorização em termos materiais/salariais. Como eu também, nos termos da minha profissão. Tampouco, talvez, represente alguma contribuição relevante, estar agora sentada em frente ao computador a escrever uma reflexão sobre o 1º de maio, pode ser... Mas, quando fazemos uma escolha ideológica para nossa vida, em que pese estarem essas escolhas totalmente fora de moda, a questão já não é mais tão pragmática - "o que adianta realizar este ou aquele pequeno ato em prol do socialismo e das classes trabalhadoras?". É claro que realizarmos atos maiores, de comprometimento orgânico com a luta é bem melhor que realizarmos pequenos atos... A questão é que já não conseguimos nos omitir, já não conseguimos, simplesmente deixar passar o dia como se não estivesse acontecendo nada, no mínimo seguimos consumidos por uma certa angústia ou melancolia de quem gostaria de ver as ruas cheias de gente com palavras de ordem, faixas e cartazes, ao som da Internacional. E nesses casos, a memória é remexida, memória de coisas que vivemos e daquelas que não vivemos, mas lemos, ou nos foram contadas. Esta memória não sossega e pede para ser compartilhada. Não há saída a não ser atender seus apelos e contar para quem nos ouça, por exemplo, que a luta de classes não acabou, que não estamos vivendo o fim da história. Sem querer ser condescendente com os partidos de esquerda, sindicatos e demais organizações dos movimentos populares, é preciso dizer que muitas lutas mais ou menos isoladas, mais ou menos silenciadas vem sendo travadas hoje. Ontem mesmo, li uma carta de organizações populares que denunciavam as execuções de camponeses e de um professor universitário em Roraima nos conflitos por terra. É novamente a memória que traz o pensamento de um verdureiro londrino do início do século XIX, lido no volume 3 da Formação da Classe Operária (E. P. Thompson). Segundo ele "As pessoas imaginam que, quando tudo está quieto, está se estagnando. O propagandismo continua apesar disso. É quando tudo está quieto que a semente cresce, os republicanos e socialistas levam a frente suas doutrinas". Não significa que uma nova sociedade, sem a exploração do trabalho, igualitária, livre e justa, vá surgir espontaneamente, de uma hora para outra. Ela precisa ser construída, entretanto é preciso ter clareza que essa construção é uma disputa: tantas vezes os tijolos são colocados para, logo em seguida, serem derrubados. Mas, a partir do momento que fazemos a escolha ideológica pelo socialismo, entramos em nosso tempo para disputar e construir. Por fim, deixo novamente manifestar a memória ainda ao falar em construção. Segue a baixo, a poesia de Vinícios de Moraes, que sempre me emociona nas descobertas do operário e na sua constante renovação da construção de si, de sua classe, de um outro mundo. Tijolos assentados, tijolos derrubados, esse fio liga historicamente o operário de Vinícius aos operários que morreram, por outros que viverão, deixemos esse fio tecer também as nossas esperanças.


O operário em construção (Vinícius de Moraes)

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

Tomei emprestado esse material de uma pessoa que prezo muito e que sempre me comove.